Poucos jogadores no circuito são tão educados
e tranqüilos como o mineiro André Sá.
Aos 27 anos, depois de ter passado por momentos de vitórias
em 2002, e ter penado com diversas derrotas em 2003,
André Sá se sente confortável e
maduro o suficiente para lembrar sua carreira sem se
esquivar dos momentos difíceis.
Em 2002, quando disputou na maior parte do ano torneios
de grande porte da Associação dos Tenistas
Profissionais (ATP), Sá fechou a temporada com
um histórico de 23 vitórias em 51 jogos.
A campanha em Wimbledon, quando conquistou quatro vitórias
e só perdeu para o britânico Tim Henman,
então sétimo do ranking mundial, colocou
Sá no hall das estrelas do esporte nacional, tanto
que ele foi indicado para o prêmio de atleta do
ano do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
Veio a temporada seguinte e, quando a expectativa era
de que André Sá melhorasse seu ranking,
o mineiro foi surpreendido por uma série de 15
derrotas seguidas. Passou a viver um verdadeiro inferno
astral nos torneios e viu seu ranking despencar. Das
34 partidas que disputou no ano passado, Sá venceu
apenas nove.
Agora, lutando para melhorar seu ranking (estava em 220
na última semana de agosto), André Sá vive
uma nova experiência na carreira. Mudou-se para
Blumenau, em Santa Catarina, para treinar na academia
de Larri Passos, técnico de Gustavo Kuerten, localizada
em Camboriu. Está com um técnico novo,
Roland Santos, e a parceria já começou
a dar resultados.
No início de julho, jogando o challenger (torneios
de pequeno porte da ATP) de São Paulo, sagrou-se
campeão de simples e duplas, e ganhou novo ânimo
para o restante do ano. Ele não levantava um troféu
desde 2001 e os resultados lhe deixaram bastante animado
para o resto da temporada e também o levou às
Olimpíadas de Atenas, onde jogou duplas com o
paulista Flávio Saretta.
A reportagem da revista Iate encontrou-se com André Sá na
terceira semana de julho, em Campos do Jordão,
durante a disputa do Credicard MasterCard Tennis Cup.
O mineiro não foi bem neste torneio e acabou surpreendido
logo na estréia. Lá ele concedeu esta entrevista
exclusiva em que discutiu vários aspectos de sua
carreira.
O tenista falou sobre seu casamento, sobre sua rotina
de treinos e viagens, sonhos e o que espera do tênis
brasileiro a partir de 2005, quando a briga entre os
profissionais e a Confederação Brasileira
de Tênis terá chegado ao fim com a saída
do atual presidente Nelson Nastás do comando da
CBT. Também deu conselhos aos juvenis (entre eles
o tenista do Iate Raony Carvalho) que disputaram a Copa
Davis.
Foi um bate-papo franco com alguém que viveu o
lado bom e ruim das quadras e que tem muito a ensinar
para quem está entrando no circuito profissional
ou gosta do esporte. Com vocês as idéias
e opiniões de André Sá.
Iate - Desde 2001, quando você conquistou os troféus
nos challengers de Calabasas (EUA) e Salvador, você não
levava para casa um troféu de campeão.
O ano de 2003 foi muito difícil e agora você conquista
os títulos de simples e duplas do challenger de
São Paulo. O que isso representou em termos de
confiança?
André Sá – Esses títulos
representaram muito. Acho que talvez até um pouco
mais do que os anteriores. Realmente eu tive um ano e
meio muito difíceis na minha carreira. Foi complicado
ganhar jogos e adquirir confiança. Agora, ganhar
em simples e duplas é muito especial. Não é sempre
que se tem essa oportunidade. Para mim foi excepcional.
Eu acho que joguei bem desde a primeira rodada até a
final, fui melhorando a cada dia e hoje eu já sou
um jogador bem diferente do que eu era um ano e meio
atrás. Estou cheio de confiança, sentindo
que estou jogando bem e que estou batendo bem na bola.
Então, estou confiante para o que vem pela frente.
Iate - Em 2002, você viveu o melhor ano de sua
carreira. Chegou às quartas-de-final em Wimbledon,
ficou entre os 50 melhores do mundo, foi indicado para
atleta do ano no prêmio do Comitê Olímpico
Brasileiro (COB) e depois, em 2003, viveu uma série
de derrotas em primeiras rodadas de torneios e acabou
despencando no ranking. Como foi administrar um ano ruim,
logo depois de um ano tão bom?
André Sá – É complicado.
Você nunca sabe o que esperar. Realmente eu terminei
o ano de 2002 jogando muito bem, com tudo lá em
cima. Estava tudo tranqüilo, me sentindo muito bem...
Eu acho que 2003 foi um ano de aprendizado para mim.
Nunca tinha acontecido de passar tanto tempo sem ganhar
um jogo, passar tanto tempo sem se sentir bem dentro
da quadra. Foi como uma bola de neve no começo
de 2003. Eu estava me sentindo bem, jogando bem, mas
não ganhava. Houve jogos em que eu tinha muitas
chances, chegava ao terceiro set com break (break point)
na frente e não ganhava. Depois de Miami, acho
que foi ali no meio de março, eu já comecei
a não me sentir bem. No começo do ano eu
estava perdendo, mas jogando bem, isso faz parte. Mas
depois de Miami eu já comecei a não jogar
bem. Aí ficou mais complicado ainda, porque eu
não tinha confiança e isso a gente só consegue
com jogos. Eu não estava nunca me sentindo bem
na quadra, e sentia que não estava jogando bem.
Isso foi crescendo, como eu disse, e foi virando uma
bola de neve. A minha cabeça ficou muito ruim
e acabou que foi um ano horrível para mim. Em
2004 eu comecei um pouco melhor e agora já está em
um momento bem legal.
Iate - Qual foi o momento mais
crítico dessa
fase ruim de 2003?
André Sá – Eu acho que foi o ano
inteiro. Depois de Miami, até Wimbledon. Foi um
momento horrível em que realmente eu não
estava me sentindo bem. Eu estava treinando legal, mas
chegava nos jogos e não conseguia fazer as coisas
direito, não conseguia jogar bem e realmente a
minha cabeça estava muito ruim. De março
a julho de 2003 foi o período mais difícil
para mim.
Iate – Você chegou a ter algum acompanhamento
psicológico? Ou conseguiu sair dessa fase sozinho?
André Sá – Eu não procurei
nenhuma ajuda psicológica. Acho que já tinha
experiência suficiente para saber quando estava
jogando bem e quando não estava. Quando era o
adversário que jogava melhor ou quando era eu
quem perdia. O principal para mim era treinar, era me
sentir bem no treino. Mas não estava conseguindo
passar o treino para a quadra. Sabia que em algum momento
iria dar um click e eu achei que não precisava
de um acompanhamento psicológico. Talvez tenha
sido até uma decisão errada, mas no final
das contas acho que isso tudo aí já passou.
Já estou tranqüilo e nem penso muito nisso
aí. Já estou no meio de 2004 e o que eu
estou na cabeça agora é continuar me sentindo
bem.
Iate - Você defendeu o país na Davis, viveu
o clima da equipe e agora o Brasil vive o perigo de ser
rebaixado para a terceira divisão da competição,
tendo que jogar com uma equipe de atletas juvenis. O
que você tem a dizer sobre toda essa crise entre
técnicos e jogadores e a atual direção
da CBT?
André Sá – Eu acho que é uma
pena o tênis do Brasil ter que estar passando por
isso. A decisão que a gente tomou juntos, eu,
Guga, o Saretta e o Ricardo (Ricardo Mello) foi essa:
não jogar. A gente não estava feliz com
a maneira com que as coisas estavam sendo feitas e achou
que precisava de uma mudança. Infelizmente o Nelson
(Nelson Nastás, presidente da Confederação
Brasileira de Tênis, acusado pelos jogadores de
má administração frente à CBT)
não quis sair. A gente falou que ou ele saía
ou a gente não jogava e aconteceu tudo isso. Ele
falou que iria sair e acabou não saindo, deu aquela
confusão toda... Ele disse que iria sair em maio,
mas a gente falou: não, em maio a gente não
acha legal, a gente quer que você saia agora. E
acabou que estavámos certos. Não jogamos
contra o Paraguai e em maio ele não saiu. E não
vai sair o ano inteiro. Acho que infelizmente o tênis
está pagando e principalmente nós, jogadores,
estamos pagando. A gente estava na Davis, no Grupo Mundial
(primeira divisão). Eu fiz parte do grupo que
foi à semifinal contra a Austrália (em
2000). A competição que a gente mais dá importância
no ano, depois dos Grand Slams (Aberto da Austrália,
Roland Garros, Wimbledon e US Open), é a Copa
Davis. Minhas semanas favoritas no ano são as
semanas de Copa Davis e infelizmente ter que abrir mão
agora... Já estou com 27 anos e, sei lá...
Pode ser que, se a gente cair para a terceira divisão,
só poderemos voltar ao Grupo Mundial daqui a três
anos. É um negócio complicado. Mas o que
eu sinto é que estou abrindo mão de muita
coisa para ter uma melhora no tênis.
Iate – O presidente da Confederação
Brasileira de Tênis (CBT), Nelson Nastás,
já deixou claro que vai cumprir o mandato dele
até o fim, em dezembro. Então, não
adianta ficar mais batendo nesta tecla e pedir que ele
saia porque isso não vai acontecer. O que se pode
esperar do tênis brasileiro e da CBT a partir de
2005, quando o Nelson Nastás, pivô de toda
essa confusão, não estiver mais no comando
da confederação?
André Sá – É difícil
querer esperar alguma coisa. Eu cresci jogando tênis
e eles nunca me deram nada e nunca deram nada para ninguém.
O que a gente espera é só que seja uma
coisa mais honesta. Uma coisa mais aberta e mais perto
dos jogadores. Espero que não seja um negócio
só de dirigentes que não estão tão
envolvidos com o tênis. Não dá para
esperar muita coisa também.
Iate – Falta o quê para o tênis brasileiro
colocar mais jogadores entre os 100 ou 50 melhores do
mundo? A Argentina, por exemplo, tem se mostrado um fenômeno
nesse sentido. Os argentinos fizeram a final de Roland
Garros e mais outros dois torneios este ano e o Brasil
não consegue fazer com que mais jogadores entrem
de vez no circuito profissional e se firmem lá.
O que pode ser feito para, pelo menos a longo prazo,
mudar esse cenário?
André Sá – Acho que o principal
mesmo para que os jogadores do Brasil possam se dar bem é a
mentalidade, tanto da garotada, dos juvenis, como dos
profissionais. Acho que eles (os profissionais) poderiam
dar um pouco mais, treinar um pouco mais, se dedicar
um pouco mais. Acho que a mentalidade do argentino é diferente.
Eles são aquele povo raçudo, que saiu de
casa cedo, foi para Buenos Aires, porque lá é o único
lugar que eles têm para treinar. Aqui não é assim.
Você pode treinar em São Paulo, em Florianópolis,
em Fortaleza, no Rio de Janeiro... Então, eu sinto
o pessoal um pouco acomodado. Os juvenis têm que
ir para a Europa, ficar três meses jogando lá,
e têm que achar bom isso. É uma oportunidade.
Não dá para ficar pensando “pó,
eu vou ficar longe de casa”. Essa mentalidade é o
que deveria mudar. Em relação à construção
de um Centro de treinamentos, acho que é muito
difícil porque o Brasil é muito grande
e tem muitas opções para o jogador treinar.
Não é igual a Espanha em que todo mundo
treina em Barcelona ou na Argentina em que todo mundo
treina em Buenos Aires. Em relação à CBT
não tenho muito o que esperar. A CBT nunca ajudou
ninguém e não sei se vai ajudar no futuro.
Tomara que sim. Torço para que isso que a gente
está fazendo agora, abrindo mão de várias
coisas em nossas carreiras, daqui a quatro ou cinco anos
dê algum resultado.
Iate - Muita gente acha que a
rotina de um tenista profissional é a
melhor coisa do mundo. Sempre viajando, conhecendo outros
países... Na verdade a gente sabe que não é esse
mar de rosas. Como funciona a sua rotina e quais os planos
até o final do ano?
André Sá – Minha rotina é bem
simples. Eu viajo entre 30 e 35 semanas no ano e estou
sempre treinando. Não gosto de tirar muitos dias
para ficar parado. Eu estou morando em Blumenau (SC),
treinando direto na academia do Larri (Larri Passos,
técnico do Guga), que é em Camboriu, a
40 minutos da minha casa. Estou com um treinador novo,
o Roland Santos. Ele trabalhava lá na academia
do Larri por muito tempo e agora eu peguei ele para viajar
comigo. A gente está se dando super bem. Foi um
começo que até a gente não esperava,
com um título de simples e duplas. Para frente
eu quero disputar os torneios no Brasil. Eu acho que
tenho que tentar jogar o melhor para sair desses torneios
entre os 200 do mundo.
Iate - Você casou no final do ano passado. Como
foi essa mudança em sua vida e como está sendo
o apoio de sua esposa em sua carreira? Afinal, vida de
tenista não é a melhor coisa do mundo para
a esposa, já que o marido está sempre viajando.
André Sá – Está sendo excepcional.
Estou com a Fernanda há sete anos. Ela está comigo
desde o começo da minha carreira profissional.
Ela entende o meu trabalho e as coisas que eu preciso
fazer. Então ela me apóia. Na verdade a
minha vida de casado não mudou muita coisa. Eu
continuo viajando direto e o que mudou mesmo foi que
a gente está morando junto, porque a gente não
estava morando junto antes. Ela sempre foi um apoio muito
grande para mim e agora que a gente está casado
ela está viajando comigo muito mais semanas do
que no passado e está ótimo. Minha vida
pessoal está totalmente realizada. E agora é só fazer
aquele balanço com a vida profissional.
Iate - Na França, o Guga surpreendeu ao bater
o suíço Roger Federer, indiscutivelmente
o melhor do mundo. Por pouco ele não chegou à semifinal
em Roland Garros, o que teria lhe colocado bem perto
de um quarto título. Como você viu a campanha
do Guga em Roland Garros este ano? O Guga é seu
padrinho de casamento e um de seus grandes amigos. Você acredita
que ele possa voltar ao posto de top ten? Você tem
conversado com ele e sentido essa energia?
André Sá – Com certeza. O Guga em
Roland Garros parece que está em um terreno sagrado.
Ali ele é um dos caras mais difíceis de
se ganhar. Ele adora jogar ali, é o lugar em que
ele se sente mais confortável dentro da quadra
e então eu acho que ele vai ser sempre um dos
favoritos. Esse ano ele provou isso. O Federer vinha
de vitórias em Hamburgo, vitórias não
sei aonde, jogando super bem, o melhor do mundo, e o
Guga foi lá e ganhou de 3 x 0. Foi um jogo que
todo mundo achou que seria de cinco sets ou que o Federer
iria ganhar fácil. O Guga provou que não,
que ele ainda tem café no bule. Ele está com
fome. Eu sinto que ele está bem. A gente conversou
depois de Roland Garros e ele falou que realmente foi
uma pena, que ele estava se sentindo bem contra o Nalbandian
(Guga perdeu para o argentino David Nalbandian nas quartas-de-final).
Mas ele está bem. Ele vai reduzir um pouco o calendário
dele por conta da lesão que ele sofreu no quadril.
Mas ele ainda está super motivado com os torneios
grandes. Então ele é um cara que, em uma
semana que está bem, ganha de qualquer um. Não
tem conversa.
Iate - O Brasil está com uma série de
jovens talentos, como os que atuaram na Copa Davis contra
a Venezuela, se preparando para ingressar no circuito
profissional. Que conselhos você poderia dar para
essa turma que está saindo do juvenil agora e
entrando no circuito profissional e, de repente, vai
ter que voltar a quadra para tentar evitar que o Brasil
caia para a terceira divisão na Copa Davis?
André Sá – A única coisa
que eu posso falar é que eles aproveitem o momento
de jogar uma Copa Davis, que para mim é uma das
melhores competições do tênis. Eles
têm que entrar lá e desfrutar. Tentar aprender
o máximo, ver todos os jogos, todos os pontos,
analisar tudo. Para a carreira deles o que eles têm
que fazer é trabalhar duro. Não tem atalho
para o sucesso. Você tem que trabalhar duro e tentar
aprender o máximo possível com contatos
que talvez eles tenham com outros jogadores que já sejam
profissionais. Tentar aprender com eles, assistir jogos,
ficar no clube das oito da manhã às oito
da noite para ver como os jogadores reagem em certas
situações do jogo. Eu acho que isso aí é que é a
experiência. É saber o que fazer em certos
momentos do jogo e encontrar o seu melhor no momento
de maior pressão durante a partida. Isso aí se
aprende é assistindo, principalmente jogando e
treinando 24 horas por dia, se puder. O tênis hoje
está muito competitivo. Você pega um cara
que está em 200 do mundo e ele pode ganhar de
qualquer um. Todo mundo está sacando muito bem
e está fisicamente preparado. Então são
esses mínimos detalhes que você tem que
se agarrar e que fazem a diferença. Pode não
ser nesta semana ou na próxima. Mas daqui a duas
semanas, faz diferença.
Iate - Você tem um sonho no tênis?
André Sá – Sonho eu sempre tive.
Aquele sonho de estar entre os 20 do mundo, talvez um
dia um top ten. Isso aí é um sonho. Eu
acho que todo mundo deve sonhar alto, porque sempre te
dá aquela motivação a mais. Ser
um top tem ou um top 20 seria um sonho para mim.
|