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Edição nº 17 - setembro/outubro de 2004


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  Sem medo do passado


Poucos jogadores no circuito são tão educados e tranqüilos como o mineiro André Sá. Aos 27 anos, depois de ter passado por momentos de vitórias em 2002, e ter penado com diversas derrotas em 2003, André Sá se sente confortável e maduro o suficiente para lembrar sua carreira sem se esquivar dos momentos difíceis.
Em 2002, quando disputou na maior parte do ano torneios de grande porte da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), Sá fechou a temporada com um histórico de 23 vitórias em 51 jogos. A campanha em Wimbledon, quando conquistou quatro vitórias e só perdeu para o britânico Tim Henman, então sétimo do ranking mundial, colocou Sá no hall das estrelas do esporte nacional, tanto que ele foi indicado para o prêmio de atleta do ano do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
Veio a temporada seguinte e, quando a expectativa era de que André Sá melhorasse seu ranking, o mineiro foi surpreendido por uma série de 15 derrotas seguidas. Passou a viver um verdadeiro inferno astral nos torneios e viu seu ranking despencar. Das 34 partidas que disputou no ano passado, Sá venceu apenas nove.
Agora, lutando para melhorar seu ranking (estava em 220 na última semana de agosto), André Sá vive uma nova experiência na carreira. Mudou-se para Blumenau, em Santa Catarina, para treinar na academia de Larri Passos, técnico de Gustavo Kuerten, localizada em Camboriu. Está com um técnico novo, Roland Santos, e a parceria já começou a dar resultados.
No início de julho, jogando o challenger (torneios de pequeno porte da ATP) de São Paulo, sagrou-se campeão de simples e duplas, e ganhou novo ânimo para o restante do ano. Ele não levantava um troféu desde 2001 e os resultados lhe deixaram bastante animado para o resto da temporada e também o levou às Olimpíadas de Atenas, onde jogou duplas com o paulista Flávio Saretta.
A reportagem da revista Iate encontrou-se com André Sá na terceira semana de julho, em Campos do Jordão, durante a disputa do Credicard MasterCard Tennis Cup. O mineiro não foi bem neste torneio e acabou surpreendido logo na estréia. Lá ele concedeu esta entrevista exclusiva em que discutiu vários aspectos de sua carreira.
O tenista falou sobre seu casamento, sobre sua rotina de treinos e viagens, sonhos e o que espera do tênis brasileiro a partir de 2005, quando a briga entre os profissionais e a Confederação Brasileira de Tênis terá chegado ao fim com a saída do atual presidente Nelson Nastás do comando da CBT. Também deu conselhos aos juvenis (entre eles o tenista do Iate Raony Carvalho) que disputaram a Copa Davis.
Foi um bate-papo franco com alguém que viveu o lado bom e ruim das quadras e que tem muito a ensinar para quem está entrando no circuito profissional ou gosta do esporte. Com vocês as idéias e opiniões de André Sá.

Iate - Desde 2001, quando você conquistou os troféus nos challengers de Calabasas (EUA) e Salvador, você não levava para casa um troféu de campeão. O ano de 2003 foi muito difícil e agora você conquista os títulos de simples e duplas do challenger de São Paulo. O que isso representou em termos de confiança?

André Sá – Esses títulos representaram muito. Acho que talvez até um pouco mais do que os anteriores. Realmente eu tive um ano e meio muito difíceis na minha carreira. Foi complicado ganhar jogos e adquirir confiança. Agora, ganhar em simples e duplas é muito especial. Não é sempre que se tem essa oportunidade. Para mim foi excepcional. Eu acho que joguei bem desde a primeira rodada até a final, fui melhorando a cada dia e hoje eu já sou um jogador bem diferente do que eu era um ano e meio atrás. Estou cheio de confiança, sentindo que estou jogando bem e que estou batendo bem na bola. Então, estou confiante para o que vem pela frente.

Iate - Em 2002, você viveu o melhor ano de sua carreira. Chegou às quartas-de-final em Wimbledon, ficou entre os 50 melhores do mundo, foi indicado para atleta do ano no prêmio do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e depois, em 2003, viveu uma série de derrotas em primeiras rodadas de torneios e acabou despencando no ranking. Como foi administrar um ano ruim, logo depois de um ano tão bom?

André Sá – É complicado. Você nunca sabe o que esperar. Realmente eu terminei o ano de 2002 jogando muito bem, com tudo lá em cima. Estava tudo tranqüilo, me sentindo muito bem... Eu acho que 2003 foi um ano de aprendizado para mim. Nunca tinha acontecido de passar tanto tempo sem ganhar um jogo, passar tanto tempo sem se sentir bem dentro da quadra. Foi como uma bola de neve no começo de 2003. Eu estava me sentindo bem, jogando bem, mas não ganhava. Houve jogos em que eu tinha muitas chances, chegava ao terceiro set com break (break point) na frente e não ganhava. Depois de Miami, acho que foi ali no meio de março, eu já comecei a não me sentir bem. No começo do ano eu estava perdendo, mas jogando bem, isso faz parte. Mas depois de Miami eu já comecei a não jogar bem. Aí ficou mais complicado ainda, porque eu não tinha confiança e isso a gente só consegue com jogos. Eu não estava nunca me sentindo bem na quadra, e sentia que não estava jogando bem. Isso foi crescendo, como eu disse, e foi virando uma bola de neve. A minha cabeça ficou muito ruim e acabou que foi um ano horrível para mim. Em 2004 eu comecei um pouco melhor e agora já está em um momento bem legal.

Iate - Qual foi o momento mais crítico dessa fase ruim de 2003?

André Sá – Eu acho que foi o ano inteiro. Depois de Miami, até Wimbledon. Foi um momento horrível em que realmente eu não estava me sentindo bem. Eu estava treinando legal, mas chegava nos jogos e não conseguia fazer as coisas direito, não conseguia jogar bem e realmente a minha cabeça estava muito ruim. De março a julho de 2003 foi o período mais difícil para mim.

Iate – Você chegou a ter algum acompanhamento psicológico? Ou conseguiu sair dessa fase sozinho?

André Sá – Eu não procurei nenhuma ajuda psicológica. Acho que já tinha experiência suficiente para saber quando estava jogando bem e quando não estava. Quando era o adversário que jogava melhor ou quando era eu quem perdia. O principal para mim era treinar, era me sentir bem no treino. Mas não estava conseguindo passar o treino para a quadra. Sabia que em algum momento iria dar um click e eu achei que não precisava de um acompanhamento psicológico. Talvez tenha sido até uma decisão errada, mas no final das contas acho que isso tudo aí já passou. Já estou tranqüilo e nem penso muito nisso aí. Já estou no meio de 2004 e o que eu estou na cabeça agora é continuar me sentindo bem.

Iate - Você defendeu o país na Davis, viveu o clima da equipe e agora o Brasil vive o perigo de ser rebaixado para a terceira divisão da competição, tendo que jogar com uma equipe de atletas juvenis. O que você tem a dizer sobre toda essa crise entre técnicos e jogadores e a atual direção da CBT?

André Sá – Eu acho que é uma pena o tênis do Brasil ter que estar passando por isso. A decisão que a gente tomou juntos, eu, Guga, o Saretta e o Ricardo (Ricardo Mello) foi essa: não jogar. A gente não estava feliz com a maneira com que as coisas estavam sendo feitas e achou que precisava de uma mudança. Infelizmente o Nelson (Nelson Nastás, presidente da Confederação Brasileira de Tênis, acusado pelos jogadores de má administração frente à CBT) não quis sair. A gente falou que ou ele saía ou a gente não jogava e aconteceu tudo isso. Ele falou que iria sair e acabou não saindo, deu aquela confusão toda... Ele disse que iria sair em maio, mas a gente falou: não, em maio a gente não acha legal, a gente quer que você saia agora. E acabou que estavámos certos. Não jogamos contra o Paraguai e em maio ele não saiu. E não vai sair o ano inteiro. Acho que infelizmente o tênis está pagando e principalmente nós, jogadores, estamos pagando. A gente estava na Davis, no Grupo Mundial (primeira divisão). Eu fiz parte do grupo que foi à semifinal contra a Austrália (em 2000). A competição que a gente mais dá importância no ano, depois dos Grand Slams (Aberto da Austrália, Roland Garros, Wimbledon e US Open), é a Copa Davis. Minhas semanas favoritas no ano são as semanas de Copa Davis e infelizmente ter que abrir mão agora... Já estou com 27 anos e, sei lá... Pode ser que, se a gente cair para a terceira divisão, só poderemos voltar ao Grupo Mundial daqui a três anos. É um negócio complicado. Mas o que eu sinto é que estou abrindo mão de muita coisa para ter uma melhora no tênis.

Iate – O presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), Nelson Nastás, já deixou claro que vai cumprir o mandato dele até o fim, em dezembro. Então, não adianta ficar mais batendo nesta tecla e pedir que ele saia porque isso não vai acontecer. O que se pode esperar do tênis brasileiro e da CBT a partir de 2005, quando o Nelson Nastás, pivô de toda essa confusão, não estiver mais no comando da confederação?

André Sá – É difícil querer esperar alguma coisa. Eu cresci jogando tênis e eles nunca me deram nada e nunca deram nada para ninguém. O que a gente espera é só que seja uma coisa mais honesta. Uma coisa mais aberta e mais perto dos jogadores. Espero que não seja um negócio só de dirigentes que não estão tão envolvidos com o tênis. Não dá para esperar muita coisa também.

Iate – Falta o quê para o tênis brasileiro colocar mais jogadores entre os 100 ou 50 melhores do mundo? A Argentina, por exemplo, tem se mostrado um fenômeno nesse sentido. Os argentinos fizeram a final de Roland Garros e mais outros dois torneios este ano e o Brasil não consegue fazer com que mais jogadores entrem de vez no circuito profissional e se firmem lá. O que pode ser feito para, pelo menos a longo prazo, mudar esse cenário?

André Sá – Acho que o principal mesmo para que os jogadores do Brasil possam se dar bem é a mentalidade, tanto da garotada, dos juvenis, como dos profissionais. Acho que eles (os profissionais) poderiam dar um pouco mais, treinar um pouco mais, se dedicar um pouco mais. Acho que a mentalidade do argentino é diferente. Eles são aquele povo raçudo, que saiu de casa cedo, foi para Buenos Aires, porque lá é o único lugar que eles têm para treinar. Aqui não é assim. Você pode treinar em São Paulo, em Florianópolis, em Fortaleza, no Rio de Janeiro... Então, eu sinto o pessoal um pouco acomodado. Os juvenis têm que ir para a Europa, ficar três meses jogando lá, e têm que achar bom isso. É uma oportunidade. Não dá para ficar pensando “pó, eu vou ficar longe de casa”. Essa mentalidade é o que deveria mudar. Em relação à construção de um Centro de treinamentos, acho que é muito difícil porque o Brasil é muito grande e tem muitas opções para o jogador treinar. Não é igual a Espanha em que todo mundo treina em Barcelona ou na Argentina em que todo mundo treina em Buenos Aires. Em relação à CBT não tenho muito o que esperar. A CBT nunca ajudou ninguém e não sei se vai ajudar no futuro. Tomara que sim. Torço para que isso que a gente está fazendo agora, abrindo mão de várias coisas em nossas carreiras, daqui a quatro ou cinco anos dê algum resultado.

Iate - Muita gente acha que a rotina de um tenista profissional é a melhor coisa do mundo. Sempre viajando, conhecendo outros países... Na verdade a gente sabe que não é esse mar de rosas. Como funciona a sua rotina e quais os planos até o final do ano?

André Sá – Minha rotina é bem simples. Eu viajo entre 30 e 35 semanas no ano e estou sempre treinando. Não gosto de tirar muitos dias para ficar parado. Eu estou morando em Blumenau (SC), treinando direto na academia do Larri (Larri Passos, técnico do Guga), que é em Camboriu, a 40 minutos da minha casa. Estou com um treinador novo, o Roland Santos. Ele trabalhava lá na academia do Larri por muito tempo e agora eu peguei ele para viajar comigo. A gente está se dando super bem. Foi um começo que até a gente não esperava, com um título de simples e duplas. Para frente eu quero disputar os torneios no Brasil. Eu acho que tenho que tentar jogar o melhor para sair desses torneios entre os 200 do mundo.

Iate - Você casou no final do ano passado. Como foi essa mudança em sua vida e como está sendo o apoio de sua esposa em sua carreira? Afinal, vida de tenista não é a melhor coisa do mundo para a esposa, já que o marido está sempre viajando.

André Sá – Está sendo excepcional. Estou com a Fernanda há sete anos. Ela está comigo desde o começo da minha carreira profissional. Ela entende o meu trabalho e as coisas que eu preciso fazer. Então ela me apóia. Na verdade a minha vida de casado não mudou muita coisa. Eu continuo viajando direto e o que mudou mesmo foi que a gente está morando junto, porque a gente não estava morando junto antes. Ela sempre foi um apoio muito grande para mim e agora que a gente está casado ela está viajando comigo muito mais semanas do que no passado e está ótimo. Minha vida pessoal está totalmente realizada. E agora é só fazer aquele balanço com a vida profissional.

Iate - Na França, o Guga surpreendeu ao bater o suíço Roger Federer, indiscutivelmente o melhor do mundo. Por pouco ele não chegou à semifinal em Roland Garros, o que teria lhe colocado bem perto de um quarto título. Como você viu a campanha do Guga em Roland Garros este ano? O Guga é seu padrinho de casamento e um de seus grandes amigos. Você acredita que ele possa voltar ao posto de top ten? Você tem conversado com ele e sentido essa energia?

André Sá – Com certeza. O Guga em Roland Garros parece que está em um terreno sagrado. Ali ele é um dos caras mais difíceis de se ganhar. Ele adora jogar ali, é o lugar em que ele se sente mais confortável dentro da quadra e então eu acho que ele vai ser sempre um dos favoritos. Esse ano ele provou isso. O Federer vinha de vitórias em Hamburgo, vitórias não sei aonde, jogando super bem, o melhor do mundo, e o Guga foi lá e ganhou de 3 x 0. Foi um jogo que todo mundo achou que seria de cinco sets ou que o Federer iria ganhar fácil. O Guga provou que não, que ele ainda tem café no bule. Ele está com fome. Eu sinto que ele está bem. A gente conversou depois de Roland Garros e ele falou que realmente foi uma pena, que ele estava se sentindo bem contra o Nalbandian (Guga perdeu para o argentino David Nalbandian nas quartas-de-final). Mas ele está bem. Ele vai reduzir um pouco o calendário dele por conta da lesão que ele sofreu no quadril. Mas ele ainda está super motivado com os torneios grandes. Então ele é um cara que, em uma semana que está bem, ganha de qualquer um. Não tem conversa.

Iate - O Brasil está com uma série de jovens talentos, como os que atuaram na Copa Davis contra a Venezuela, se preparando para ingressar no circuito profissional. Que conselhos você poderia dar para essa turma que está saindo do juvenil agora e entrando no circuito profissional e, de repente, vai ter que voltar a quadra para tentar evitar que o Brasil caia para a terceira divisão na Copa Davis?

André Sá – A única coisa que eu posso falar é que eles aproveitem o momento de jogar uma Copa Davis, que para mim é uma das melhores competições do tênis. Eles têm que entrar lá e desfrutar. Tentar aprender o máximo, ver todos os jogos, todos os pontos, analisar tudo. Para a carreira deles o que eles têm que fazer é trabalhar duro. Não tem atalho para o sucesso. Você tem que trabalhar duro e tentar aprender o máximo possível com contatos que talvez eles tenham com outros jogadores que já sejam profissionais. Tentar aprender com eles, assistir jogos, ficar no clube das oito da manhã às oito da noite para ver como os jogadores reagem em certas situações do jogo. Eu acho que isso aí é que é a experiência. É saber o que fazer em certos momentos do jogo e encontrar o seu melhor no momento de maior pressão durante a partida. Isso aí se aprende é assistindo, principalmente jogando e treinando 24 horas por dia, se puder. O tênis hoje está muito competitivo. Você pega um cara que está em 200 do mundo e ele pode ganhar de qualquer um. Todo mundo está sacando muito bem e está fisicamente preparado. Então são esses mínimos detalhes que você tem que se agarrar e que fazem a diferença. Pode não ser nesta semana ou na próxima. Mas daqui a duas semanas, faz diferença.

Iate - Você tem um sonho no tênis?

André Sá – Sonho eu sempre tive. Aquele sonho de estar entre os 20 do mundo, talvez um dia um top ten. Isso aí é um sonho. Eu acho que todo mundo deve sonhar alto, porque sempre te dá aquela motivação a mais. Ser um top tem ou um top 20 seria um sonho para mim.



 

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