Dois velejadores, que acompanharam o início
da carreira de Torben Grael no Lago Paranoá, relembram
com carinho a época em que ele freqüentava
intensamente o clube e descrevem a emoção
de vê-lo conquistar a medalha de ouro nas Olimpíadas
de Atenas
A
vida do velejador Torben Grael nunca mais será a
mesma depois das Olimpíadas de Atenas. Também
pudera... Aos 44 anos, este paulista, nascido no dia
22 de julho de 1960, entrou definitivamente, e com enorme
destaque, para a história do esporte brasileiro
em 26 de agosto de 2004. Neste dia, uma quinta-feira
ensolarada na Grécia, ele e o companheiro Marcelo
Ferreira conquistaram a medalha de ouro da classe Star
e emocionaram o país.
O feito fez com que Torben Grael se tornasse o maior
brasileiro na história dos Jogos Olímpicos.
Com duas medalhas de ouro, uma de prata e duas de bronze
(veja quadro), ele é o atleta do país mais
vitorioso em Olimpíadas. E a participação
impecável de Torben em Atenas encheu de orgulho
todos os sócios do Iate Clube de Brasília,
já que alguns Iatistas brasilienses puderam participar,
por um bom tempo, da rotina de treinos de Torben na capital.
Muita gente não sabe, mas Torben Grael e seu irmão,
o também velejador e medalhista olímpico
Lars Grael, moraram por vários anos em Brasília.
E foi aqui, na raia do Iate Clube, que os dois aperfeiçoaram
suas habilidades na vela e apaixonaram-se de vez pelo
esporte que tantas alegrias daria a Torben Grael, que
há seis anos ganhou o título de sócio
honorário do Iate Clube de Brasília.
Parceiro do Comodoro
Durante os anos de 1974 e 1975, o atual Comodoro do
Iate, George Raulino, velejou com Torben Grael no mesmo
barco, na classe 470. Torben, à época,
era um adolescente entre 14 e 15 anos. Essa época
traz ao Comodoro ótimas recordações
sobre o super campeão olímpico brasileiro.
Ainda hoje, quem conhece Torben Grael sabe que ele é uma
celebridade discreta, quase tímida, do tipo que
não faz muita questão de aparecer na mídia.
Essa história, entretanto, mudava quando Torben
entrava em um barco para competir. “Ele sempre
foi quieto, mas quando estava competindo ficava alucinado”,
lembrou George Raulino. “Ele se irritava muito
dentro do barco e essa foi uma das coisas que eu tentei
frear nele. Se um velejador fica muito irritado durante
uma regata, perde a concentração, o que
dificulta a tomada de decisões”, explicou.
Juntos, o Comodoro e Torben Grael chegaram a competir
em dois campeonatos brasileiros de 470, um em Porto Alegre
e outro em São Paulo. “Mas não nos
destacamos. Foi um barco ao qual nenhum de nós
se adaptou”, ressaltou Raulino, que depois de tanta
convivência com o bicampeão olímpico
reserva um carinho especial pelo velejador. “O
sentimento que eu tenho por ele é parecido com
o de um pai. Tanto que até hoje eu o chamo de
Torbinho. E o sacana, até hoje, me chama de gordo.
Uma total falta de respeito”, brinca o Comodoro.
“Ele (Torben Grael) ficava aqui no Iate o dia inteiro.
Se não tinha vento, ia jogar tênis ou então
arrumar alguma coisa para fazer no barco. Ele até dormia
dentro dos barcos para já amanhecer no clube. O
Torben sempre teve talento. Só que mais do que isso,
ele tinha uma dedicação enorme”
Comodoro George Raulino
Garoto obstinado
O carioca Marcello Katalinic Dutra, 42 anos, mais conhecido
como Ziguinha, tinha apenas 6 anos quando mudou-se para
Brasília com a família. Já nesta idade,
começou a velejar aqui no Iate e foi neste período
que ele conheceu Torben Grael.
“
Eu velejava na classe Optimist quando o Torben chegou a
Brasília, no início da década de 70.
Como ele já era grande e tinha um bom peso, não
passou pelo Optimist e entrou direto nas classes Pinguim
e Snipe”, recordou.
Dessa época, Ziguinha recorda-se com clareza de
um traço da personalidade de Torben Grael. “A
principal lembrança que eu tenho dele é a
obstinação pela perfeição.
A gente velejava no sábado pela manhã e tarde,
voltava a competir no domingo pela manhã (Ziguinha
disputou regatas nas classes Snipe e Laser sempre contra
Torben. Eles nunca velejaram no mesmo barco) e quando a
regata de domingo acabava, eu ia para casa descansar e
o Torben continuava no clube, no galpão dos barcos”,
lembrou o velejador.
“
Ele fazia tudo no barco sozinho. Regulava o que tinha que
ser feito, mexia na vela, fazia tudo. O Torben sempre teve
uma habilidade manual muito grande e uma enorme paciência.
E sempre foi um cara muito sozinho, muito isolado”,
explicou Ziguinha, que sentiu uma enorme alegria ao ver
Torben brilhar nas Olimpíadas de Atenas e ter todo
esforço coroado.
“Fiquei muito feliz pelo sucesso do Torben em Atenas.
Ele mereceu. A vida dele toda foi dedicada à vela
e, para nós, ele deu uma enorme lição
de que vale a pena toda essa dedicação e
obstinação em busca de um ideal”
Marcello Katalinic Dutra, o Ziguinha, Velejador que
conheceu Torben na década de 70 no Iate Clube de Brasília
Torben Schmidt Grael
Data de nascimento: 22/07/1960
Local de nascimento: São Paulo (SP)
Altura: 1,85 m
Peso: 88 kg
Residência: Niterói (RJ)
Classe: Star
Parceiro: Marcelo Ferreira
Principais resultados:
Em Olimpíadas
• ouro em Atenas-2004, com Marcelo Ferreira
• ouro em Atlanta-1996, com Marcelo Ferreira
• prata na classe Soling, em Seul-1988, com Ronaldo Senft
e Daniel Adler
•
bronze em Seul-1988, com Nélson Falcão
• bronze em Sydney-2000, com Marcelo Ferreira
Em Jogos Pan-Americanos
•
ouro na classe Soling, em Caracas01983
•
bronze na classe Soling em Indianápolis, 1987
Em Campeonatos Mundiais
•
campeão de Snipe Jr., em 1978
•
campeão de Snipe, em 1983 e 1987
•
campeão de One Ton, em 1992
•
campeão de 12 Metros, em 1999
•
campeão de Star, em 1990
Em Campeonatos Brasileiros
•
campeão de Snipe em 1980, 1981, 1983, 1987, 1990
•
campeão de Star em 1979, 1989, 1996, 1998, 2000,
2001 e 2002
•
campeão de Oceano em 1984, 1993, 1995 e 1997
•
campeão de Soling em 1980, 1981, 1982, 1985, 1986
e 1987
•
campeão de Laser em 1981 e 1984
•
campeão de Finn Juvenil em 1980 e 1981
•
campeão de Snipe Juvenil em 1976, 1977 e 1977
Um velejador iluminado
Outro Iatista que conviveu com Torben Grael durante a
década de 70 foi César Castro. “O que
eu posso dizer é que ele é uma pessoa iluminada.
Acho que, além da parte técnica e tática,
que ele domina como ninguém, o Torben é também
um ótimo mecânico de barcos. Ele sabe tudo,
desde a construção, até o comando
dos barcos.”
Para César, a alegria de ver Torben e Marcelo Ferreira
consagrados em Atenas foi um momento inesquecível. “Foi
uma emoção enorme ver um brasileiro, um amigo
e um lutador como o Torben brilhar em Atenas e, com garra
e perseverança, vencer os obstáculos.”
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