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Edição nº 17 - setembro/outubro de 2004


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  Do Iate para a glória


Dois velejadores, que acompanharam o início da carreira de Torben Grael no Lago Paranoá, relembram com carinho a época em que ele freqüentava intensamente o clube e descrevem a emoção de vê-lo conquistar a medalha de ouro nas Olimpíadas de Atenas

A vida do velejador Torben Grael nunca mais será a mesma depois das Olimpíadas de Atenas. Também pudera... Aos 44 anos, este paulista, nascido no dia 22 de julho de 1960, entrou definitivamente, e com enorme destaque, para a história do esporte brasileiro em 26 de agosto de 2004. Neste dia, uma quinta-feira ensolarada na Grécia, ele e o companheiro Marcelo Ferreira conquistaram a medalha de ouro da classe Star e emocionaram o país.
O feito fez com que Torben Grael se tornasse o maior brasileiro na história dos Jogos Olímpicos. Com duas medalhas de ouro, uma de prata e duas de bronze (veja quadro), ele é o atleta do país mais vitorioso em Olimpíadas. E a participação impecável de Torben em Atenas encheu de orgulho todos os sócios do Iate Clube de Brasília, já que alguns Iatistas brasilienses puderam participar, por um bom tempo, da rotina de treinos de Torben na capital.
Muita gente não sabe, mas Torben Grael e seu irmão, o também velejador e medalhista olímpico Lars Grael, moraram por vários anos em Brasília. E foi aqui, na raia do Iate Clube, que os dois aperfeiçoaram suas habilidades na vela e apaixonaram-se de vez pelo esporte que tantas alegrias daria a Torben Grael, que há seis anos ganhou o título de sócio honorário do Iate Clube de Brasília.

Parceiro do Comodoro

Durante os anos de 1974 e 1975, o atual Comodoro do Iate, George Raulino, velejou com Torben Grael no mesmo barco, na classe 470. Torben, à época, era um adolescente entre 14 e 15 anos. Essa época traz ao Comodoro ótimas recordações sobre o super campeão olímpico brasileiro.
Ainda hoje, quem conhece Torben Grael sabe que ele é uma celebridade discreta, quase tímida, do tipo que não faz muita questão de aparecer na mídia. Essa história, entretanto, mudava quando Torben entrava em um barco para competir. “Ele sempre foi quieto, mas quando estava competindo ficava alucinado”, lembrou George Raulino. “Ele se irritava muito dentro do barco e essa foi uma das coisas que eu tentei frear nele. Se um velejador fica muito irritado durante uma regata, perde a concentração, o que dificulta a tomada de decisões”, explicou.
Juntos, o Comodoro e Torben Grael chegaram a competir em dois campeonatos brasileiros de 470, um em Porto Alegre e outro em São Paulo. “Mas não nos destacamos. Foi um barco ao qual nenhum de nós se adaptou”, ressaltou Raulino, que depois de tanta convivência com o bicampeão olímpico reserva um carinho especial pelo velejador. “O sentimento que eu tenho por ele é parecido com o de um pai. Tanto que até hoje eu o chamo de Torbinho. E o sacana, até hoje, me chama de gordo. Uma total falta de respeito”, brinca o Comodoro.

“Ele (Torben Grael) ficava aqui no Iate o dia inteiro. Se não tinha vento, ia jogar tênis ou então arrumar alguma coisa para fazer no barco. Ele até dormia dentro dos barcos para já amanhecer no clube. O Torben sempre teve talento. Só que mais do que isso, ele tinha uma dedicação enorme”

Comodoro George Raulino

Garoto obstinado

O carioca Marcello Katalinic Dutra, 42 anos, mais conhecido como Ziguinha, tinha apenas 6 anos quando mudou-se para Brasília com a família. Já nesta idade, começou a velejar aqui no Iate e foi neste período que ele conheceu Torben Grael.
“ Eu velejava na classe Optimist quando o Torben chegou a Brasília, no início da década de 70. Como ele já era grande e tinha um bom peso, não passou pelo Optimist e entrou direto nas classes Pinguim e Snipe”, recordou.
Dessa época, Ziguinha recorda-se com clareza de um traço da personalidade de Torben Grael. “A principal lembrança que eu tenho dele é a obstinação pela perfeição. A gente velejava no sábado pela manhã e tarde, voltava a competir no domingo pela manhã (Ziguinha disputou regatas nas classes Snipe e Laser sempre contra Torben. Eles nunca velejaram no mesmo barco) e quando a regata de domingo acabava, eu ia para casa descansar e o Torben continuava no clube, no galpão dos barcos”, lembrou o velejador.
“ Ele fazia tudo no barco sozinho. Regulava o que tinha que ser feito, mexia na vela, fazia tudo. O Torben sempre teve uma habilidade manual muito grande e uma enorme paciência. E sempre foi um cara muito sozinho, muito isolado”, explicou Ziguinha, que sentiu uma enorme alegria ao ver Torben brilhar nas Olimpíadas de Atenas e ter todo esforço coroado.

“Fiquei muito feliz pelo sucesso do Torben em Atenas. Ele mereceu. A vida dele toda foi dedicada à vela e, para nós, ele deu uma enorme lição de que vale a pena toda essa dedicação e obstinação em busca de um ideal”

Marcello Katalinic Dutra, o Ziguinha, Velejador que conheceu Torben na década de 70 no Iate Clube de Brasília


Torben Schmidt Grael

Data de nascimento: 22/07/1960
Local de nascimento: São Paulo (SP)
Altura: 1,85 m
Peso: 88 kg
Residência: Niterói (RJ)
Classe: Star
Parceiro: Marcelo Ferreira

Principais resultados:
Em Olimpíadas

• ouro em Atenas-2004, com Marcelo Ferreira
• ouro em Atlanta-1996, com Marcelo Ferreira
• prata na classe Soling, em Seul-1988, com Ronaldo Senft e Daniel Adler
• bronze em Seul-1988, com Nélson Falcão
• bronze em Sydney-2000, com Marcelo Ferreira

Em Jogos Pan-Americanos
• ouro na classe Soling, em Caracas01983
• bronze na classe Soling em Indianápolis, 1987

Em Campeonatos Mundiais
• campeão de Snipe Jr., em 1978
• campeão de Snipe, em 1983 e 1987
• campeão de One Ton, em 1992
• campeão de 12 Metros, em 1999
• campeão de Star, em 1990

Em Campeonatos Brasileiros
• campeão de Snipe em 1980, 1981, 1983, 1987, 1990
• campeão de Star em 1979, 1989, 1996, 1998, 2000, 2001 e 2002
• campeão de Oceano em 1984, 1993, 1995 e 1997
• campeão de Soling em 1980, 1981, 1982, 1985, 1986 e 1987
• campeão de Laser em 1981 e 1984
• campeão de Finn Juvenil em 1980 e 1981
• campeão de Snipe Juvenil em 1976, 1977 e 1977

Um velejador iluminado

Outro Iatista que conviveu com Torben Grael durante a década de 70 foi César Castro. “O que eu posso dizer é que ele é uma pessoa iluminada. Acho que, além da parte técnica e tática, que ele domina como ninguém, o Torben é também um ótimo mecânico de barcos. Ele sabe tudo, desde a construção, até o comando dos barcos.”
Para César, a alegria de ver Torben e Marcelo Ferreira consagrados em Atenas foi um momento inesquecível. “Foi uma emoção enorme ver um brasileiro, um amigo e um lutador como o Torben brilhar em Atenas e, com garra e perseverança, vencer os obstáculos.”



 

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