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Edição nº 17 - setembro/outubro de 2004


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Pra não dizer que nunca falo de flores

Estava com amigos numa dessas casas holliwoodianas à beira do Lago Sul, quando uma paulista começou a falar mal dos serviços de Brasília, do clima e até dos engarrafamentos. Que cara-de-pau!
Fiquei indignado, mas Jânio, um dos indivíduos mais diplomáticos que conheço (no bom sentido), teve uma idéia brilhante. Dirigindo-se sutilmente a mim, perguntou:
-O que você mais gosta em Brasília?
Acabei me sentindo pouco original, ao citar definição da ex-embaixatriz da Grécia, Antonia Doukas, que foi embora do DF no início do ano.
-O que Brasília tem de mais fantástico é o céu! Costumo ficar horas olhando as variações do céu no fim da tarde – dizia ela com sinceridade (o Conpresb devia tombar o nosso céu!) .
Uma arquiteta petista chamada Áurea deu opinião depois de mim e preferiu concentrar-se na faixa de pedestres, que considerou uma conquista de todos nós. “A população fez um pacto consigo mesmo e com o governo para mostrar que podemos viver num clima de Primeiro Mundo”.
Surpreendeu a todos a reação da adolescente Vera, muito tímida, que falou rapidinho:
-Pois eu prefiro os canteiros de flores!!!
E uma amiga dela, Bruna, defendeu o Parque da Cidade como “o melhor do mundo”.
Conversa vai, conversa vem, uma socióloga chamada Rosa lembrou que, desde os primeiros tempos, há uma regra em Brasília que não foi imposta por lei nem por decreto, mas que pegou para sempre:
-Aqui não buzinamos! Protestamos quando ouvimos uma buzina e ninguém sabe como começou esse hábito.
Jânio disse que isso se iniciou quando colocaram placas proibitivas nas entradas da cidade. Mas Sérgio, outro apaixonado por Brasília, argumentou que a placa veio depois da prática. Isto é: nós não buzinamos porque um dia decidimos não buzinar. Simplesmente tudo isso!
Lembrei logo da minha Bahia, onde fazer barulho no trânsito é o esporte preferido de homens e mulheres, e fiquei orgulhoso de me tornar brasiliense nesses 30 anos.
Valéria, médica recém-chegada de Portugal, comentou que não entende porque as mulheres fumam tanto na Europa. E contou que esnobou os europeus, mostrando que na nossa cidade está cada vez mais forte a consciência de que fumar é uma imbecilidade.
A essas alturas, a paulista insatisfeita não entendia nada, pois a conversa descobriu tantas qualidades em Brasília, que até parecia uma agressão do grupo contra ela.
Um certo Gil, circunspecto, falou que a característica mais forte do brasiliense é a vontade de estudar. E mostrou que as secretárias, os motoristas, os contínuos, as mais diversas pessoas estão procurando cursos noturnos nas 65 instituições de nível superior existentes no DF. Ele provou que somos recordistas no Brasil em número de cursos universitários, o que certamente engrandece a nossa sociedade. “Até os velhinhos estão estudando”, garantiu o tal Gil.
Para ser do contra, tive vontade de reclamar da secura, alertando que a umidade relativa do ar pode chegar perto dos 10% em setembro, mas Bernardo, outro entusiasmado com Brasília, falou antes, dizendo que o seu orgulho era ter sido vizinho da Legião Urbana, dos Paralamas do Sucesso e do Capital Inicial, na década de 80. A nossa cidade é também a capital do rock.
Não faltava mais nada. Isto é, quase nada.
O casal também paulista Cleide-Eduardo entrou na história para confessar a sua paixão pelo lago Paranoá. Com um ar meio fanático, garantiram que as águas estão completamente despoluídas e que vão de barco até perto da barragem, “lá onde o lago acaba”, local que tem a fundura de quase 40 metros, chamado de Angra dos Reis Candanga. Nesse ponto do lago, dezenas de barcos ficam fundeados, enquanto homens, mulheres e crianças mergulham livremente, num espetáculo inigualável.
-É uma pena que a maioria da população não tenha condições de ir lá, curtir o melhor pedaço do Paranoá – disse Cleide.
De repente, recuperei minha originalidade e gritei:
-Desculpem, mas quero mudar o meu voto, em nome da liberdade! Brasília é a única cidade do mundo que tem uma placa invisível dizendo: “É permitido pisar na grama”.
Todos riram - até a paulista azeda. E tomamos muitas cervejas em homenagem a JK.

 


 

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