Pra não dizer que nunca falo de flores
Estava com amigos numa dessas casas holliwoodianas à beira
do Lago Sul, quando uma paulista começou a falar
mal dos serviços de Brasília, do clima
e até dos engarrafamentos. Que cara-de-pau!
Fiquei indignado, mas Jânio, um dos indivíduos
mais diplomáticos que conheço (no bom sentido),
teve uma idéia brilhante. Dirigindo-se sutilmente
a mim, perguntou:
-O que você mais gosta em Brasília?
Acabei me sentindo pouco original, ao citar definição
da ex-embaixatriz da Grécia, Antonia Doukas, que
foi embora do DF no início do ano.
-O que Brasília tem de mais fantástico é o
céu! Costumo ficar horas olhando as variações
do céu no fim da tarde – dizia ela com sinceridade
(o Conpresb devia tombar o nosso céu!) .
Uma arquiteta petista chamada Áurea deu opinião
depois de mim e preferiu concentrar-se na faixa de pedestres,
que considerou uma conquista de todos nós. “A
população fez um pacto consigo mesmo e
com o governo para mostrar que podemos viver num clima
de Primeiro Mundo”.
Surpreendeu a todos a reação da adolescente
Vera, muito tímida, que falou rapidinho:
-Pois eu prefiro os canteiros de flores!!!
E uma amiga dela, Bruna, defendeu o Parque da Cidade
como “o melhor do mundo”.
Conversa vai, conversa vem, uma socióloga chamada
Rosa lembrou que, desde os primeiros tempos, há uma
regra em Brasília que não foi imposta por
lei nem por decreto, mas que pegou para sempre:
-Aqui não buzinamos! Protestamos quando ouvimos
uma buzina e ninguém sabe como começou
esse hábito.
Jânio disse que isso se iniciou quando colocaram
placas proibitivas nas entradas da cidade. Mas Sérgio,
outro apaixonado por Brasília, argumentou que
a placa veio depois da prática. Isto é:
nós não buzinamos porque um dia decidimos
não buzinar. Simplesmente tudo isso!
Lembrei logo da minha Bahia, onde fazer barulho no trânsito é o
esporte preferido de homens e mulheres, e fiquei orgulhoso
de me tornar brasiliense nesses 30 anos.
Valéria, médica recém-chegada de
Portugal, comentou que não entende porque as mulheres
fumam tanto na Europa. E contou que esnobou os europeus,
mostrando que na nossa cidade está cada vez mais
forte a consciência de que fumar é uma imbecilidade.
A essas alturas, a paulista insatisfeita não entendia
nada, pois a conversa descobriu tantas qualidades em
Brasília, que até parecia uma agressão
do grupo contra ela.
Um certo Gil, circunspecto, falou que a característica
mais forte do brasiliense é a vontade de estudar.
E mostrou que as secretárias, os motoristas, os
contínuos, as mais diversas pessoas estão
procurando cursos noturnos nas 65 instituições
de nível superior existentes no DF. Ele provou
que somos recordistas no Brasil em número de cursos
universitários, o que certamente engrandece a
nossa sociedade. “Até os velhinhos estão
estudando”, garantiu o tal Gil.
Para ser do contra, tive vontade de reclamar da secura,
alertando que a umidade relativa do ar pode chegar perto
dos 10% em setembro, mas Bernardo, outro entusiasmado
com Brasília, falou antes, dizendo que o seu orgulho
era ter sido vizinho da Legião Urbana, dos Paralamas
do Sucesso e do Capital Inicial, na década de
80. A nossa cidade é também a capital do
rock.
Não faltava mais nada. Isto é, quase nada.
O casal também paulista Cleide-Eduardo entrou
na história para confessar a sua paixão
pelo lago Paranoá. Com um ar meio fanático,
garantiram que as águas estão completamente
despoluídas e que vão de barco até perto
da barragem, “lá onde o lago acaba”,
local que tem a fundura de quase 40 metros, chamado de
Angra dos Reis Candanga. Nesse ponto do lago, dezenas
de barcos ficam fundeados, enquanto homens, mulheres
e crianças mergulham livremente, num espetáculo
inigualável.
-É uma pena que a maioria da população
não tenha condições de ir lá,
curtir o melhor pedaço do Paranoá – disse
Cleide.
De repente, recuperei minha originalidade e gritei:
-Desculpem, mas quero mudar o meu voto, em nome da liberdade!
Brasília é a única cidade do mundo
que tem uma placa invisível dizendo: “É permitido
pisar na grama”.
Todos riram - até a paulista azeda. E tomamos
muitas cervejas em homenagem a JK.
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